atenção nas redes sociais porque anúncios e conteúdos fracassam

Atenção em redes sociais: o que a neurociência revela sobre o fracasso dos seus anúncios e conteúdos (e o que fazer)

Há alguns meses, escrevi um texto cujo o título era: “A atenção virou mercadoria rara: o marketing precisa se adaptar ao cérebro do consumidor”.

Naquele texto, falei sobre o período psicológico refratário de Dehaene, sobre como o cérebro não processa muitos estímulos ao mesmo tempo, sobre a cegueira de banner, os leads que somem, a importância do offline e os 21 canais de tração. Sim, tudo isso tem ligação. Clique aqui se quiser conferir esse texto.

A conclusão desse texto foi: o consumidor não está desatento. Ele está sobrecarregado. E a guerra por atenção não se vence com volume, mas com relevância.

Só que, desde então, continuei estudando. E algumas coisas que eu não tinha aprofundado começaram a fazer mais sentido. Por exemplo, sobre como exatamente o cérebro decide no que prestar atenção. Sobre o limite do retargeting. Sobre a diferença entre capturar e sustentar atenção.

E resolvi compartilhar essas novas camadas com você.

Por que os anúncios com “hooks” cada vez mais exagerados estão perdendo eficácia

Você já reparou como os vídeos nas redes sociais estão cada vez mais cheios de efeitos, edições superexageradas?

Legenda saltando. Zoom a cada 0,5 segundo. Rosto surpreso. Emoji gigante. “VOCÊ PRECISA SABER DISSO!”

Funcionou. Por um tempo. Arrisco dizer que, em alguns cenários específicos, ainda funciona.

O problema é que todo mundo aprendeu a fazer isso. E quando todo mundo grita na mesma sala, ninguém ouve ninguém.

O cérebro humano tem um mecanismo chamado saliência perceptual: ele tende a priorizar estímulos diferentes do ambiente. Um objeto amarelo no meio de objetos brancos, por exemplo. Um som alto numa sala silenciosa. Um vídeo com cortes rápidos num feed de vídeos parados.

Funciona. Até que todo mundo começa a fazer a mesma coisa.

O que antes era saliente vira regularidade estatística do ambiente. E o cérebro se adapta. Estudos mostram que estímulos repetitivos perdem capacidade de capturar atenção (HILLYARD et al., 1973). Mais do que isso: o cérebro aprende a suprimir estímulos previsivelmente irrelevantes.

Ou seja: a técnica que inicialmente gerava diferenciação, agora vira ruído.

É como se você entrasse numa sala onde todo mundo está gritando. O que você faz? Aprende a ignorar os gritos.

Diante disso, fica claro que o problema não é “chamar atenção” de qualquer jeito. É conseguir que o cérebro do seu cliente identifique que aquilo merece ser processado.

Como o cérebro decide que um conteúdo merece atenção

No livro É Assim que Pensamos (2018), Dehaene explica que antes de algo entrar na consciência, o cérebro já está processando formas, palavras, rostos, emoções, familiaridade. Apenas uma pequena parcela ganha acesso ao processamento consciente.

E o que determina que algo merece esse acesso?

Três coisas principais:

1. O estímulo em si — algo diferente, intenso, inesperado. É o que a gente chama de “chamar atenção”.

2. O que a pessoa está procurando agora — se você quer comprar um apartamento, “financiamento com entrada reduzida” pode saltar aos olhos. Uma pessoa sem intenção de comprar imóvel passaria direto.

3. O valor que o cérebro aprendeu a associar àquilo — estímulos anteriormente associados a recompensa capturam atenção mesmo quando são irrelevantes (ANDERSON et al., 2011).

Portanto, o que vai chamar a atenção de alguém depende de uma combinação: estímulo × histórico da pessoa × objetivos atuais × associações aprendidas × contexto.

Traduzindo: não existe “conteúdo que chama atenção”. Existe conteúdo que chama a atenção DE ALGUÉM.

É por isso que dois vídeos idênticos podem ter resultados completamente diferentes. O estímulo é o mesmo. O cérebro que recebe o estímulo não é.

E é por isso também que, em vez de tentar ser mais chamativo para todo mundo, o caminho mais eficiente é ser mais relevante para quem importa.

O limite do retargeting: por que repetir o anúncio pode ter o efeito contrário

Agora, vamos falar de uma prática que parece óbvia, mas que a ciência mostra que precisa de cuidado: o retargeting.

A lógica é simples: a pessoa viu seu produto, olhou, pesquisou. Vamos mostrar o anúncio de novo. E de novo. E de novo.

Parece que quanto mais específico, melhor. Mas não é bem assim.

Lambrecht e Tucker (2013) fizeram um experimento de campo com uma empresa de viagens. Imagine que você pesquisou: Hotel X em Paris. Depois começa a aparecer HOTEL X EM PARIS em tudo quanto é canto.

Os anúncios de retargeting mostrando especificamente os produtos que a pessoa pesquisou foram menos eficazes do que anúncios genéricos da marca.

E aqui vem a parte mais interessante: quando o comportamento indicava que o consumidor havia avançado na decisão — começado a consultar sites de reviews, por exemplo —, o anúncio específico deixou de ter essa desvantagem.

Ou seja: a mesma mensagem pode ser prematura em um estágio e relevante em outro.

Além disso, existe um ponto onde repetição vira irritação. O estudo de Chae, Bruno e Feinberg acompanhou mais de 12 mil usuários em mais de 400 sites. Cerca de 24% da amostra entrou em weariness — novas exposições tinham efeito marginal negativo.

E tem mais: personalização pode passar do ponto. Quando a pessoa sente que você sabe demais sobre ela, a coisa inverte. Tucker (2014) mostrou que, quando uma rede social aumentou a sensação de controle dos usuários sobre sua privacidade, eles ficaram quase duas vezes mais propensos a clicar em anúncios personalizados.

Portanto, a lição aqui é: personalização + controle = potencialmente útil. Personalização + sensação de vigilância = potencialmente ameaçadora.

A diferença entre fazer alguém parar e fazer alguém ficar (e por que você precisa dos dois)

Outro ponto importante que eu não tinha aprofundado antes é a diferença entre dois processos:

  1. Atenção capturada — o que faz alguém parar de rolar.
  2. Atenção sustentada — o que faz alguém ficar até o final.

Saliência funciona para o primeiro. Relevância e valor funcionam para o segundo.

Um vídeo pode vencer a primeira com gritos, zoom e cortes. E perder a segunda em dois segundos.

Outro pode ter uma abertura visualmente simples, mas conseguir tocar em um ponto de identificação forte, como, por exemplo: “Se seus leads pedem orçamento e somem, talvez seu follow-up esteja acontecendo na janela errada.” Para o público certo, isso pode ser muito mais poderoso.

E aqui está o ponto que muitos creators ignoram: curiosidade não é um poço sem fundo.

Se você abre uma lacuna de curiosidade (“VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR”) e não entrega valor, a pessoa aprende: “isso normalmente é uma promessa exagerada.” O valor esperado do próximo conteúdo cai. E, como vimos, o valor aprendido modifica a prioridade atencional futura.

Diante disso, o conteúdo forte precisa dos dois: uma abertura que faça sentido para a pessoa e uma entrega que justifique o tempo investido.

Quatro princípios práticos para construir atenção de verdade

Com base nisso tudo, separei quatro princípios que podem guiar sua estratégia de conteúdo a partir de agora.

1. Pare de tentar ser mais chamativo. Comece a ser mais relevante.

Em vez de “5 dicas para melhorar suas vendas”, faça: “Você manda orçamento, o cliente diz ‘vou pensar’ e some?” A segunda fornece ao cérebro uma correspondência muito mais específica com a realidade da pessoa.

2. Respeite o momento do cliente.

Retargeting não é “repita até cansar”. A mesma mensagem em estágios diferentes da decisão pode ser útil ou irritante. Personalização sem contexto é vigilância, não cuidado.

3. Entregue valor ao longo do caminho, não apenas no final.

Se você prende toda a resposta até o último segundo, a pessoa pode desistir antes. Ofereça pequenas recompensas ao longo do caminho — uma resposta parcial, uma nova pergunta, uma implicação útil.

4. Treine seu público a prestar atenção em você.

Cada conteúdo ensina seu público se vale a pena prestar atenção no próximo. Se você entrega valor real, o cérebro da pessoa aprende: “quando esse perfil aparece, geralmente vale meu tempo.” Se você entrega clickbait vazio, o cérebro aprende: “isso normalmente é uma perda de tempo.”

Conclusão: a atenção não se compra, se conquista

No texto anterior, eu terminei dizendo que a atenção é um recurso biológico finito, frágil e superexplorado. E que o silêncio do consumidor não é sobre você — é sobre o cérebro humano, que no meio do caos informacional só tem espaço para o que realmente importa.

Hoje, eu adicionaria uma camada: a atenção não é só um recurso. É um relacionamento que você constrói com consistência.

Cada interação que você tem com seu público — cada vídeo, cada post, cada mensagem — está ensinando algo. Está treinando uma previsão:

“Quando essa marca aparece, geralmente vale meu tempo.”

Ou:

“Quando essa marca aparece, normalmente é uma perda de tempo.”

E essa previsão, uma vez formada, é difícil de mudar.

O grito já não funciona. A urgência falsa, também não. O que funciona é fazer o cérebro do seu cliente pensar, repetidamente: “isso é sobre mim.”


Referências

ANDERSON, B. A.; LAURENT, P. A.; YANTIS, S. Value-driven attentional capture. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 108, n. 25, p. 10367-10371, 2011.

CHAE, I.; BRUNO, H.; FEINBERG, F. Wearout or weariness? Measuring the negative impact of repeated exposure. Journal of Marketing Research, 2019.

DEHAENE, S. É assim que pensamos: os mistérios da mente humana. São Paulo: Planeta, 2018.

HILLYARD, S. A.; HINK, R. F.; SCHWENT, V. L.; PICTON, T. W. Electrical signs of selective attention in the human brain. Science, v. 182, n. 4108, p. 177-180, 1973.

LAMBRECHT, A.; TUCKER, C. When does retargeting work? Information specificity in online advertising. Journal of Marketing Research, v. 50, n. 5, p. 561-576, 2013.

TUCKER, C. Social networks, personalized advertising, and privacy controls. Journal of Marketing Research, v. 51, n. 5, p. 546-562, 2014.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Quase lá!

Deixe seu Whatsapp e vamos tirar todas as suas dúvidas antes de fecharmos nossa parceria.

Utilizamos cookies para melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.